Desde que o futebol deixou de ser anárquico, tornando-se predominante coletivo, as equipes vêm aperfeiçoando-se taticamente e os atletas fisicamente com o objetivo de dominar os espaços no campo. Nesse contexto, surgiu a mobilidade.  

No futebol dentre tantas variáveis, três são essenciais: bola, tempo e espaço.  O tempo é ditado pelos jogadores, ao escolherem a ação no momento certo. Já o espaço é o campo de jogo e a forma como os atletas se relacionam com ele. 

O princípio tático da mobilidade explora essa tríade por meio de movimentações racionais que geram ou atacam o espaço visando desequilibrar a defesa adversária, e criar oportunidades de finalização, ou de um último passe. 

Vamos conversar mais sobre isso a seguir. 

Esse post faz parte de uma série explicativa de princípios táticos. Convidamos você, boleiro, conhecer mais sobre cobertura ofensiva, cobertura defensiva, equilíbrio, espaço, penetração e contenção

Mobilidade: manipulando o espaço brilhantemente 

Há uma percepção de certa forma reducionistas de que se a equipe  possui a bola a outra possui o espaço, que não há como ter os dois. Equipes treinadas defensivamente manipulam o espaço de forma brilhante, alguns exemplos são a Inter de Mourinho, o Atlético de Madrid de Simeone. 

Um próximo do nosso país, o Corinthians Campeão Brasileiro de 2017 com Carille. Contudo, para não ficar apenas em análises reducionistas, a verdade é de que não existe como ter a bola e o tempo e deixar o espaço de lado.

Se pensarmos que o simples ato de “possuir a bola” apenas abrange o tempo, o futebol resumiria-se a ficar próximos da bola disputando entre si quem passaria mais tempo com a sua posse. E como sabemos, não é assim. 

Para a execução de um ataque de qualidade, é necessário espalhar-se racionalmente pelo campo, criando amplitude para a abertura da defesa adversária e profundidade para levar a defesa cada vez mais para trás. Fora isso, é necessário preencher o meio, o espaço de maior perigo no jogo. 

Entender esses conceitos faz toda a diferença. 

Mobilidade coloca seu futebol em outro nível 

Entender esse conceito é o que diferencia um peladeiro de um craque. As ações de mobilidades são feitas por jogadores que estão mais próximos da meta adversária. 

Vamos imaginar a seguinte situação de jogo: 

A bola está com o zagueiro do seu time. Você é o atacante. Como a bola está longe, você pode ficar parado – esperando. Certo? Não! Você deve estar em constante movimentação. 

Isso não significa ficar correndo de lá para cá, e sim, de estar atento, observando a movimentação do adversário. Um simples espaço que foi deixado que pode ser atacado, um passe entrelinhas entre o seu central. 

Exemplo 1

Exemplo 2

O futebol é feito de oportunidades, fique atento para gerar espaço para um companheiro ou chamar a atenção de um jogador adversário. O jogo do Brasil contra a Holanda, na Copa do Mundo de 2010, é um bom exemplo. 

Veja o vídeo abaixo e preste atenção na movimentação entre Robinho e o Luís Fabiano na hora do gol. Isso é mobilidade.

Mobilidade: espaço propício para dar sequência ao jogo

Messi ganhou quatro (das suas seis) Bolas de Ouro atuando como falso 9, “somente” sendo móvel entre linhas de defesa adversária, recebendo a bola na zona de maior perigo. 

Suárez é craque tanto em gerar espaço quanto em atacar no deixado pela defesa. A maioria dos seus gols partiram de um movimento de ruptura. (Dá uma olhada nesse vídeo) 

Esses dois craques são exemplos claros de que a mobilidade aplicada em zonas perigosas ganham o jogo. Contudo, para você não ficar com a falsa impressão de que está relacionada apenas com velocidade, pense no Riquelme. 

Esse jogador recebia infinitas bolas em zonas perigosas de finalização sem ser rápido, entretanto, sempre analisava o espaço e o adversário, e quando recebia a bola sempre tinha aquele UM segundo de vantagem.

No post sobre cobertura ofensiva, citamos que um jogador passa aproximadamente 3% do tempo total da partida com a bola. Com essas novas informações, reflita sobre os movimentos sem bola, aqueles distante da jogada. 

Na próxima vez que entrar em campo acrescente mobilidade no seu futebol. Abra sua mente e busque um espaço propício para dar sequência ao jogo. 

Seja finalizando a jogada, ou dando uma assistência, procure nas entrelinhas, observe a movimentação de seu adversário, do seu marcador, e sempre, pense o jogo.  Isso vai te colocar em outro patamar. 

*Escrito pelo time Joga com a colaboração dos profissionais João Vítor Wan-zuit e Guilherme Pereira do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Futebol e do Futsal – Universidade Federal de Santa Catarina (NUPEDEFF-UFSC) 

Referências: 

Teoldo da Costa, I. Garganta da Silva, JM. Greco, PJ. Mesquita, I. Princípios Táticos do Jogo de Futebol: conceitos e aplicação. Rev. Motriz, Rio Claro, 2009.

Livro: A pirâmide invertida: a história da tática no futebol. Jonathan Wilson, tradução André Kfouri – 1ª ed. – Campinas, SP; Editora Grande Área, 2016.

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